
CARTA ABERTA ÀS TRABALHADORAS
E AOS TRABALHADORES DO BRASIL
O Brasil unido conquistou uma vitória histórica. O trabalho precisa respeitar a vida!
Por Mônica Veloso
Vice-Presidente da CNTM e Coordenadora Nacional do MetalMulheres
Às trabalhadoras e aos trabalhadores brasileiros.
Hoje celebramos uma conquista histórica da classe trabalhadora brasileira. A luta pelo fim da escala 6×1 representa muito mais do que uma mudança na jornada de trabalho.
É a afirmação de que nenhuma sociedade pode ser verdadeiramente justa enquanto milhões de pessoas são obrigadas a dedicar quase todo o seu tempo ao trabalho, sacrificando o descanso, a saúde, a convivência familiar e os próprios sonhos.
Essa vitória tem um significado especial para nós, mulheres. Durante gerações, enfrentamos jornadas exaustivas dentro e fora do ambiente profissional.
Ao trabalho remunerado somam-se, frequentemente, as responsabilidades com a casa, os filhos, os idosos e o cuidado com a família.
Enquanto muitos encerram o expediente, inúmeras mulheres começam uma segunda jornada, quase sempre invisível e pouco reconhecida.
A escala 6×1 agravava essa realidade, transformando o descanso em uma breve pausa antes de recomeçar o ciclo de cansaço.
Por isso, defender o fim dessa jornada é defender a dignidade das mulheres, a igualdade de oportunidades e o direito de viver.
É permitir que mais trabalhadoras tenham tempo para estudar, cuidar da saúde, acompanhar o crescimento dos filhos, participar da vida política e comunitária e construir seus próprios projetos.
É reconhecer que a vida humana vale muito mais do que a capacidade de produzir.
Mas essa conquista não pertence a uma única pessoa, a um partido ou a uma organização. Ela é fruto de uma grande mobilização nacional, construída pela força da organização coletiva e pela união de diferentes setores da sociedade brasileira.
Quero destacar o papel fundamental das centrais sindicais, das federações e dos sindicatos, que historicamente transformam as necessidades dos trabalhadores em reivindicações coletivas.
São organizações que estão nas fábricas, nos escritórios, no comércio, nos serviços e nos locais de trabalho, ouvindo as pessoas, denunciando injustiças e defendendo direitos.
A mobilização sindical demonstra, mais uma vez, que a organização coletiva é um dos instrumentos mais importantes para transformar a realidade.
Também reconheço a contribuição das organizações sociais, dos movimentos populares, do movimento estudantil e de tantas pessoas que compreenderam a importância dessa pauta e se somaram à luta.
Quando estudantes, trabalhadores, entidades sindicais, movimentos sociais e cidadãos se unem em torno de um objetivo comum, a democracia ganha força e a sociedade amplia sua capacidade de conquistar mudanças.
O Brasil mostrou que é possível construir convergências em defesa de uma causa que toca a vida de milhões de famílias. Essa união precisa permanecer como exemplo para as próximas gerações.
Que fique a lição de que nenhuma transformação profunda acontece sem participação popular, diálogo, mobilização e coragem para enfrentar interesses contrários aos direitos da maioria.
Quero expressar meu agradecimento ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao seu governo pelo compromisso e pelo empenho em fortalecer essa pauta e contribuir para seu avanço.
O apoio do presidente foi fundamental para colocar a reivindicação no centro do debate nacional e demonstrar, mais uma vez, a importância de um governo comprometido com a classe trabalhadora.
Reconhecer esse papel é valorizar uma posição política que compreende que o desenvolvimento do país precisa caminhar junto com a dignidade de quem trabalha.
A luta pelo fim da escala 6×1 também nos permite olhar para além das fronteiras brasileiras. Em muitos países, mulheres e homens enfrentam jornadas extensas, pouco tempo de descanso e dificuldades para conciliar trabalho e vida pessoal.
A experiência brasileira pode inspirar novas mobilizações internacionais e fortalecer a convicção de que é possível exigir relações de trabalho mais humanas, com respeito, saúde e dignidade.
Essa vitória, entretanto, não encerra nossa caminhada. Precisamos continuar mobilizadas para garantir que os direitos conquistados sejam efetivamente respeitados, sem redução salarial e sem novas formas de precarização.
Também precisamos avançar no combate à desigualdade salarial, ao assédio, à discriminação e à distribuição injusta das responsabilidades domésticas e de cuidado.
Como coordenadora nacional das Mulheres da Força Sindical, reafirmo nosso compromisso com a defesa das trabalhadoras brasileiras.
Queremos um país em que as mulheres tenham igualdade de oportunidades, reconhecimento profissional, autonomia econômica e condições reais para participar de todos os espaços da sociedade.
Queremos que nossos filhos cresçam compreendendo que o cuidado é uma responsabilidade compartilhada e que nenhuma mulher deve ser obrigada a renunciar à própria vida para cumprir todas as expectativas que lhe são impostas.
O fim da escala 6×1 representa uma mudança importante na maneira de compreender o trabalho e o desenvolvimento.
Não basta produzir mais se as pessoas vivem exaustas. Não basta crescer economicamente se as famílias não têm tempo para conviver.
O verdadeiro progresso precisa ser medido também pela saúde, pela liberdade, pela igualdade e pela qualidade de vida da população.
Que essa conquista seja lembrada como resultado da união de um país que decidiu avançar. Que sirva de inspiração para outras lutas e que jamais nos esqueçamos de que os direitos se constroem com organização, solidariedade e participação democrática.
Às mulheres trabalhadoras, meu respeito e minha admiração. Aos trabalhadores brasileiros, minha solidariedade.
Às entidades sindicais, aos movimentos sociais, aos estudantes e a todos que contribuíram para essa caminhada, meu reconhecimento.
Quando o Brasil se une em torno da dignidade humana, a esperança se transforma em conquista. Trabalhar é um direito, descansar é um direito e viver plenamente também é um direito.
Seguiremos juntas e juntos, defendendo cada avanço e construindo um país em que o trabalho esteja a serviço da vida, e não a vida subordinada ao trabalho.
Mônica Veloso
Coordenadora Nacional das Mulheres da Força Sindical