Recorde de rendimento, desemprego historicamente baixo e inflação de alimentos em queda configuram novo momento do mercado de trabalho brasileiro. E abrem desafios estratégicos para o movimento sindical.

Marcos Verlaine
Neste momento histórico, o Brasil atravessa situação específica rara em sua história econômica recente: crescimento do emprego, aumento real da renda do trabalho e desaceleração expressiva do custo da alimentação.
A combinação destes 3 fatores — renda recorde, desemprego historicamente baixo e inflação de alimentos no menor patamar da série — produz quadro social significativamente mais favorável para os trabalhadores.
Esses resultados não são apenas estatísticas econômicas. Estes têm impacto direto na vida concreta dos trabalhadores, no poder de compra dos salários e na correlação de forças nas negociações coletivas.
Para o movimento sindical — e particularmente para as entidades vinculadas à CNTM — compreender o significado político e estrutural desse momento é fundamental. Trata-se de cenário que deve ser valorizado e divulgado, mas também analisado com realismo para orientar a estratégia sindical nos próximos tempos.
RENDA DO TRABALHO ATINGE RECORDE HISTÓRICO
O rendimento médio real do trabalho no Brasil alcançou R$ 3.652 no trimestre encerrado em janeiro de 2026, o maior valor desde o início da série da Pnad Contínua, em 2012.
Esse recorde não resulta de um único fator. É consequência de 3 movimentos simultâneos:
1. expansão do emprego
2. valorização real dos salários
3. aumento da massa salarial na economia
O País atingiu também níveis historicamente elevados de ocupação. A população ocupada chegou a 102,7 milhões de trabalhadores, enquanto a massa de rendimento — o volume total de salários circulando na economia — alcançou patamares recordes.
Esse dado é particularmente relevante para o movimento sindical porque a massa salarial é um dos principais motores da economia interna. Quanto maior o volume de renda do trabalho, maior o consumo, maior o dinamismo econômico e maior a capacidade de sustentação do crescimento.
Outro elemento importante é o avanço do emprego formal. Em 2025, o Brasil alcançou cerca de 39 milhões de trabalhadores com carteira assinada, o maior volume dos últimos 14 anos.
Ainda assim, a estrutura do mercado de trabalho continua marcada por desafios relevantes. A informalidade permanece elevada — 37,5% da força de trabalho — embora tenha recuado para o menor nível desde 2020.
DESEMPREGO EM NÍVEIS HISTORICAMENTE BAIXOS
Outro indicador central do atual momento do mercado de trabalho é a taxa de desocupação.
No trimestre encerrado em janeiro de 2026, o desemprego ficou em 5,4%, um dos menores índices já registrados pelo IBGE desde o início da série histórica em 2012.
A média anual de 2025 foi ainda mais expressiva: 5,6%, superando o recorde anterior registrado em 2024.
Em termos comparativos internacionais, esses números colocam o Brasil em patamar de desemprego relativamente baixo para padrões históricos do País. Em alguns estados, os indicadores se aproximam de níveis próximos ao chamado pleno emprego.
Casos emblemáticos incluem:
- Mato Grosso: 2,2%
- Santa Catarina: 2,2%
- Região Sul: 3,1%
- Centro-Oeste: 3,9%
Este cenário resulta principalmente da expansão do setor de serviços, da recuperação do mercado interno e do crescimento de segmentos intensivos em mão de obra.
Para os sindicatos, o mercado de trabalho mais aquecido tende a produzir condições mais favoráveis para negociações salariais e reivindicações trabalhistas, pois reduz o chamado “exército de reserva” de desempregados que tradicionalmente pressiona salários para baixo.
INFLAÇÃO DE ALIMENTOS EM FORTE DESACELERAÇÃO
Se renda e emprego são 2 pilares da condição de vida dos trabalhadores, o terceiro é o custo de vida, especialmente o preço dos alimentos.
Em 2025, o Brasil registrou resultado histórico: a menor inflação de alimentos da série recente.
O grupo alimentação e bebidas teve alta de apenas 2,95%, contra 7,69% no ano anterior.
Mais significativo ainda foi o comportamento dos alimentos consumidos no domicílio: base da cesta alimentar das famílias trabalhadoras. Esses produtos subiram apenas 1,43% no ano, com períodos de queda de preços entre junho e novembro.
Alguns itens essenciais registraram reduções expressivas:
- arroz: queda superior a 26%
- leite longa vida: redução de cerca de 13%
Esse movimento contribuiu decisivamente para que o índice geral de inflação fechasse 2025 em 4,26%, abaixo do teto da meta.
Para as famílias trabalhadoras, a queda no preço dos alimentos tem efeito imediato: aumenta o poder de compra real dos salários, mesmo quando os reajustes nominais não são muito elevados.
CICLO ECONÔMICO MAIS FAVORÁVEL AO TRABALHO
A combinação desses 3 fatores — renda maior, desemprego baixo e alimentos mais baratos — produz resultado social significativo.
Em termos simples, significa que o trabalho voltou a ganhar espaço na distribuição de renda.
Esse fenômeno não ocorre com frequência na história econômica brasileira. Durante décadas, o País conviveu com ciclos de crescimento acompanhados de desemprego elevado, informalidade massiva e perda do poder de compra dos salários.
Nos últimos anos, porém, alguns indicadores sugerem inflexão.
O aumento da massa salarial, por exemplo, indica que o crescimento econômico recente tem sido impulsionado principalmente pelo mercado interno. E não apenas por exportações ou ganhos financeiros.
DESAFIOS ESTRUTURAIS PERMANECEM
Apesar dos avanços, o quadro ainda está longe de ser plenamente satisfatório para a classe trabalhadora. Persistem problemas estruturais importantes:
- Informalidade elevada: Mais de 1/3 dos trabalhadores ainda está fora da proteção trabalhista.
- Desigualdade regional: As diferenças entre regiões permanecem profundas. Enquanto algumas áreas registram quase pleno emprego, outras continuam com indicadores mais frágeis.
- Qualidade do emprego: Nem todos os novos postos de trabalho possuem salários elevados ou estabilidade.
- Pressões de custos: Embora os alimentos tenham ajudado a reduzir a inflação, outros itens — como energia elétrica — continuam pressionando o custo de vida.
PAPEL DO MOVIMENTO SINDICAL
Diante desse cenário, o movimento sindical enfrenta desafio estratégico.
Por um lado, é fundamental valorizar e divulgar os avanços sociais recentes. Esses demonstram que políticas econômicas orientadas para o emprego, a renda e o mercado interno produzem resultados concretos para os trabalhadores.
Por outro lado, esses avanços não podem gerar acomodação política ou sindical.
O momento de melhora relativa do mercado de trabalho pode e deve ser utilizado para avançar em pautas estruturais, como:
- redução da jornada de trabalho, ainda que gradual
- fim da escala 6×1
- valorização real dos salários
- combate à informalidade
- fortalecimento da negociação coletiva
- ampliação da proteção social
Historicamente, os períodos de crescimento do emprego são justamente aqueles em que os trabalhadores conseguem conquistar avanços mais duradouros.
ELEIÇÕES 2026 E CORRELAÇÃO DE FORÇAS
Os 3 indicadores analisados também têm implicações políticas diretas. Emprego, renda e custo de vida são historicamente os fatores que mais influenciam o comportamento eleitoral das maiorias sociais.
Quando o trabalhador percebe melhora concreta na própria vida — mais empregos, salários maiores e alimentos mais baratos — a tendência é que se fortaleçam projetos políticos associados a essas políticas econômicas.
Nesse sentido, o cenário atual coloca questão estratégica para o campo democrático e progressista: a continuidade desse ciclo dependerá da correlação de forças que emergir das eleições de 2026.
Para o movimento sindical, isso significa que o debate econômico não pode ser dissociado do debate político. A manutenção de políticas orientadas para o emprego, a renda e o mercado interno exigem:
- reeleger o presidente Lula (PT)
- ampliar as bancadas progressistas, de centro-esquerda e de esquerda no Congresso Nacional
Sem base parlamentar mais sólida, qualquer governo comprometido com políticas sociais e trabalhistas enfrenta enormes dificuldades para avançar em reformas estruturais ou mesmo preservar conquistas existentes.
A experiência recente demonstra que a disputa pelo Congresso é tão decisiva quanto a disputa pela Presidência da República.
MOMENTO QUE PRECISA SER COMPREENDIDO
Os 3 indicadores analisados — renda recorde, desemprego baixo e inflação de alimentos reduzida — configuram momento positivo para o mundo do trabalho no Brasil.
Esses não significam que todos os problemas foram resolvidos, nem que o País entrou em ciclo permanente de prosperidade.
Mas indicam algo importante: quando o emprego cresce e os salários ganham poder de compra, a sociedade como um todo se fortalece.
Para o movimento sindical, compreender essa dinâmica é essencial. Porque a disputa central continua sendo a mesma de sempre: quem se apropria da riqueza produzida pelo trabalho.
E é nessa disputa que os sindicatos seguem tendo papel insubstituível.
Marcos Verlaine
Jornalista, analista político e assessor parlamentar do Diap