Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos

Artigo

Dois números redondos

João Guilherme Vargas Netto, consultor de entidades sindicais de trabalhadores

Os números redondos são mais fáceis de memorizar e, às vezes, representam algo mais do que quantificam; são símbolos mágicos.

Este é o caso dos números 600 e 1000 na atual conjuntura brasileira.

600 reais é o que as centrais sindicais lutam para garantir como auxílio emergencial até dezembro.

1000 é o número da medida provisória do governo que corta pela metade o auxílio e elimina milhões de possíveis beneficiários.

A campanha das centrais sindicais – baseada em um abaixo assinado virtual cujo apoio cresce a cada dia, mas ainda se revela insuficiente – visa mobilizar a base sindical, influenciar os partidos de oposição e todos os outros e comover a opinião pública, levando o presidente da Câmara dos Deputados a colocar em votação a MP 1000.

Sobre esta campanha, sobre a justeza e a necessidade da manutenção do auxílio e sobre a MP 1000 tem caído na mídia grande e nas redes sociais uma pesada cortina de silêncio.

Levando em conta a redondeza facilitadora dos dois números o interdito chega a ser patético.

Enquanto se discutem as possíveis variações de auxílios compensatórios para depois da pandemia não se fala sobre a manutenção dos 600 reais até dezembro.

A MP 1000 jamais é mencionada; a única vez que vi impresso seu número nos jornalões foi em artigo da jornalista Maria Cristina Fernandes, do Valor.

Para se garantir a votação urgente da MP 1000 e manter os 600 reais é preciso criar um clima de comoção nacional exigente que fure a bolha dos rentistas e fiscalistas, desperte os partidos para tal tarefa afastando-os do “quando pior, melhor”, convença os alienados e leve o Congresso Nacional a votar já.

A simplicidade dos dois números redondos pode ajudar nisto, desde que mencionados com a ênfase merecida.

João Guilherme, consultor de entidades sindicais de trabalhadores

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