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Altair Garcia

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Reconversão industrial contra a crise do coronavírus

Altair Garcia

“Em tese a reconversão industrial é um ótimo mecanismo para enfrentar a pandemia do Covid-19. Por um lado, ajudaria a enfrentar os gargalos gerados pela doença que é inédita (pela velocidade que se alastrou e pelo poder de atingir todos os cantos do mundo, com efeitos gravíssimos para as pessoas), sem falar no impacto econômico, que ainda é cedo para ser calculado.

Por outro lado, o que os especialistas chamam de reconversão industrial nada mais é do que o aproveitamento da capacidade instalada, ociosa ou não, de parte do parque industrial. Neste caso, para um fim social, humanitário e de saúde.

Digo em tese porque, para se ter um certo êxito neste processo, é preciso ter capacidade de planejamento, coordenação, implementação, investimento, certificação e monitoramento. Tudo isto é fundamental para a efetividade das ações. Por exemplo: produzir respiradores não é simples. No Brasil são só três empresas e o coeficiente de importação é enorme, ou seja mais de 80% das peças são importadas. Ademais para produzir respiradores é preciso ter peças, reunir engenheiros de biomedicina, profissionais de usinagem, impressão 3D e outros especialistas .

De qualquer forma, este esforço é fundamental e deve ser incentivado no curto, médio e longo prazos, sobretudo no Brasil que nas ultimas décadas optou pela reprimarização da sua pauta de exportação, desmontando um dos maiores parques industriais integrados do planeta. Para se ter uma ideia disto, a participação da indústria brasileira na economia no final da década de 1980  atingia praticamente 30%. Em 2019, esta participação caiu para 11% , ou seja, retrocedemos aos anos 1940.

Para finalizar este ponto, acredito que a iniciativa de reconversão industrial é importante. Já foi adotada em outros países em períodos de guerra e voltou a ser utilizada pelos EUA, Alemanha e Inglaterra.

Este processo exige uma capacidade de coordenação do Estado e de instituições chaves como, por exemplo, o Instituto Oswaldo Cruz, universidades públicas, institutos de pesquisa etc. As empresas têm papel importante neste processo, tanto nos aspectos que envolvem a produção, processos e preservação de emprego, quanto na manutenção dos níveis de atividade econômica. Os trabalhadores são fundamentais para a pesquisa, a inovação, o desenvolvimento e a produção.

A reconversão industrial no Brasil é importante não só para o enfrentamento da crise (produção de máscaras, luvas, equipamentos e insumos), mas porque recoloca também um ponto importante na agenda das políticas públicas. Como um país como o Brasil, com inúmeros problemas sociais e ao mesmo tempo com o maior sistema de saúde pública no mundo, não tem uma produção nacional básica de equipamentos e insumos?

Crises como estas podem gerar o que os economistas chamam de externalidades positivas, uma delas é ressignificar paradigmas produtivos e econômicos. Este momento coloca na mesa  vários aprendizados com relação ao papel do Estado, das políticas públicas e da própria indústria.

Este ano de 2020 deve ser um divisor de águas para a indústria e a política industrial. O Brasil precisa de uma vez por todas realizar um profundo e amplo processo de transformação da estrutura produtiva, que oriente a produção para o enfrentamento dos problemas sociais, como é o caso do SUS.

O movimento sindical brasileiro tem destaque nessa crise pois está fazendo um enfrentamento corajoso em diversas frentes.  Além de defender a quarentena, produziu várias propostas junto com Dieese para mitigar os efeitos da crise, através de ações propositivas diretas,  encaminhando ao Congresso propostas de projetos de lei e de emendas que visam a garantia de emprego e renda: não só para os trabalhadores formais, mas para toda a população.

O movimento sindical tem negociado com o Congresso e os governos federal, estaduais e municipais iniciativas para que os cidadãos brasileiros mais vulneráveis sejam protegidos nesta grave crise. Mesmo com inúmeras dificuldades financeiras, o movimento sindical tem negociado com as empresas, através de contratos coletivos, um leque de medidas que visam a proteção do trabalhador, a manutenção do emprego e a garantia de renda.

O movimento sindical tem uma longa tradição de discutir políticas industriais, de forma tripartite, desde a década de 1990, e, neste sentido, tem propostas interessantes para a reconversão industrial que já estão sendo devidamente apresentadas para o governo federal e os Estados”.

Altair Garcia
Técnico do Dieese e Professor da Escola Superior de Ciências  do Trabalho do Dieese

Altair Garcia

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